domingo, 20 de julho de 2008

A Bailarina

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Em 1881 quando Degas exibiu sua bailarina, foi um escândalo na sociedade parisiense, queriam manda-la pra o museu de zoologia ou de anomalias humanas, consideravam a escultura com olhar obsceno, o formato do rosto foi comparado aos piores bandidos e assassinos daquela época.


O artista levou para dentro dos salões de arte um espécime de olhar atrevido, moldado em cera e composto de  tecido e cabelo humano(materiais inéditos e considerados vulgares), retratava de forma crua,  uma jovem esquálida,  de aproximadamente 14 anos de feições não nobres.


O artista escandalizou quando mostrou de forma realista e nua a hipocrisia  dos poderosos que ao financiavam as artes dos  balés se beneficiavam com a prostituição infantil das bailarinas.


 127 anos depois no sul das Américas, crianças esquálidas, de semblantes morenos, com menos de 14 anos são leiloadas para satisfação do turismo sexual dos europeus. São  pequenas bailarinas e malabaristas de instrumentos torpes, são dançarinas da quadrilha  dos poderosos degenerados.


São nossas pequenas meninas, de olhares atrevidos.


 

sábado, 12 de julho de 2008

Pesoa


 


A poesia é triste


A poesia existe.


Quando o poeta é feliz


A poesia peca.


Quando tudo arde de paixão


Sinto as palavras irem para longe.


Já dizia Pesoa


Só existe poesia na angústia


Desculpe-me poeta maior


Que morra a poesia


Estou feliz com meu amor

terça-feira, 17 de junho de 2008

Verde


A mata pariu no meio do seio vermelho
iluminado dia de outubro que trouxe para mim ?
foi a brisa que caiu da árvore molhada de rio
verteu para o meu peito temperado de rosa
veio com os pés quentes de menino dourado
aqueceu minha nuca gelada
de neve da solidão
mexeu com meu sangue
ardeu o meu sexo
regou minha vida
fez-se verde

quinta-feira, 12 de junho de 2008


Quando me encara com essa boca


fico azul amarelado


me acompanha por entre a  multidão


e eu só solidão


escoro na parede molhada


encurto o caminho da volta


vou desvirtuando a noite


por entre as gargalhadas da rua


chuto o cão e viro  a lata


dou graças e te perdôo


mais uma vez.


Queria a tua distância


que me violenta e me castra


da felicidade


do encanto


de  ter sua boca


que me encara e não suplica. 

sexta-feira, 30 de maio de 2008

retornável e descartável






















retornar um dia seria um erro.


retornar é voltar e sentir de novo


o cheiro da flor, o travo da jabuticaba verde


 o mistério de caçar casulo


andar descalço no quintal de pedra


e sentir a dor da picada de abelha no pé


retornar  é ressurreição


é restauração de coisas que foram ruins


das pancadas na cabeça, das migalhas da sua mesa.


retornar é sentir sede e a garganta seca


é se perder até não poder


é suar de  tesão no meio do bambuzal.


retornar é voltar a ter medo


de cá do muro


ornado da cruel tortura  


da  idade infame.


retornar é ouvir o eco do  berro


do xingo


dos meninos da escola.


retornar é arrancar a ruga


é não querer voltar nunca.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Mãe


fabricar o ser, torna o vínculo anímico.


o desconforto


dores


são esquecidas no momento da troca dos olhares


entre a cria e a criadora.


no meio de porcarias, cheiro desagradável, choros intermináveis,


noites mal dormidas e a insegurança da criação, 


nasce a correspondência e a cumplicidade dos dois seres.


amor materno.


o homem


traz em si  a  invídia natural  o vazio maternal,


jamais algo tão intenso, irracional, imortal, atemporal


irá somar.


o quanto igual a você eu queria ser, eu queria ter.